domingo, março 30, 2008

Por aqui nada.
A velha teia, e a respectiva fixação pela incerteza.
A tremer de estaticidade.
O coração vago e rancoroso.
Antemanhã em nulidade absorta...
O esquecimento de despontar com os sentidos,
e a consciência revoltando-se.
Derivei hoje progressivamente,
declinando o rumo,
a estrada afundando-me em todo o seu alcatrão.

Sensação de erro absoluto...
Mas afinal,
é só um outro dia.

Valha-nos a regeneração
enquanto não formos cinza.

sábado, março 15, 2008

Os dissertantes
procuram ao caminhar
as altitudes
de escrever o vinho,
de procurar
embriagar
a incerteza de estar.

Ladram ao vento
os cães da planície
que poisa o mundo
e alisa ao fundo
da caminhada
o Sonho Apagado,
dissipação.

A côr das nuvens,
quando branca,
é a aura da montanha
que coroa
o espírito e desenha
a canoa
que dormita sem manha.

O seu adeus
é o sol posto,
os tons rubros
nostálgicamente.

Oh, linha do horizonte,
és o cais em que aporta
o silêncio de Tudo
e o som de Nada,
a quimera maíuscula
de que se vangloriam
contradizendo-se
os Neófitos...

Sorrio hoje
a tristeza íntima
dos nómadas,
alegre de passagem
na alvorada
que o Sol invoca
no coração cego
das horas.

Oh,
como choro
quieto
este país
estendido à verdade
das auroras
interiores,
este local em que sitio,
afinal,
a mentira da ocupação
que enfim adormeço
num ponto final.

Maré de palavras,
as frases soltas,
nenhuma onda
encontra a quilha...

Pedaços de vida,
museu do eu,
para que tu vejas,
para que tu vejas...

A rotunda tem música
e eu tenho regras,
há que violar
a pauta
para que nasça
a flauta.

Alegrem-se,
árvores laterais,
que a viagem
é.

(Turbilhão)
(Paz e vento)
(Oriente)
(Ocidente)

Fina flor
que desponta
no asfalto...

Vruuuum.
Semeiam sonhos
os infantes
esquecidos,
abandonados
à beira da estrada.

Congeminam maravilhas
por essas mesmas milhas
de permeio.

O esturpor,
o freio
e o rigor
procuram revoltar-se...

Mas antes,
ecoa a fibra
que tudo liga
e era a aragem
que aqui deixa uns pós
reminiscente.

quarta-feira, março 12, 2008

Tem vezes em que só me apetece desfazer da clausura, em que sinto uma necessidade asfixiante de desenterrar a pureza do esforço e da continuidade do esforço. Remeter de volta toda a discrição do consolo que é o hábito, pequenos impulsos meramente fáceis, simples esquissos de anestesia frustrada. Reorganizar a mente, a palavra, o sonho e a aproximação. Regressar. Reconquistar, dir-se-ia quase. Primeiro recolher, e por fim reagir novamente... São estas as palavras desta noite em que me custa o pasmo existencial e a inércia redundante, por contraste ao interior batimento do coração.

domingo, março 09, 2008

Inspiro-me
nos teus olhos.

(tudo a desfocar-se...)

Um fascínio natural
soergue-se do medo
e suspira a memória,
dobrada a esquina lúcida.

Encontro a criança
impossível,
intangível
nos contos que foi
o sonho ido,
o sono vivido
em serena emoção.

Percebo o que é
o sublime.

Regresso a mim
de mim.

Aguardo
a tua presença
celestial
que desnudo
utópicamente
da distância triste
que é a minha luta
contra a minha mesma
distância...

a minha mesma distância,
repito,
algo irritadamente.

Tudo isto se passa ao de leve,
no poema
de fim-de-tarde,
o coração pulsando ao de leve
as tonalidades do pôr-de-sol
e o não querer deixá-las partir
noite e sombra fora...

...o cintilante verde dos teus olhos...
...encarnação viva da eternidade...
...para lá de limiares estéticos...
...o verde suave e absoluto dos teus olhos...
...e sobretudo,

tu contida neles.

sábado, março 08, 2008

Perseguindo muralhas estéticas
mergulhavam na fossa comum
os alcoviteiros da Liberdade.

Tenho dôr para dar. A dôr da realidade,
vertida sussurrada
ao meu ouvido incrédulo,
teimosamente surdo ao eco do espelho.

Não ultimo a concepção. Sou ligeiro,
e custa-me verificar a diferença
sem a alma que sustenta,
sem os anos segurando a rede
de que pressinto o baloiçar
hipotético
por outra dimensão.

Abafado,
o canto ergue-se de poeira,
pueril
como mais esta madrugada -
e afinal, amanhece tarde
pois as nuvens, que foram água,
que seriam correnteza,
são hoje a ditadura da sombra
por onde espreitam os murmúrios,
por onde espreita a palavra.

A mim,
indiscretos amantes do consensualismo.
Dubito-vos mas sem punhal.
Não enxergo o punhal que vos rasga a saia
de rodar
colorida de sociedade,
imposto fluxo
de energias falsas,
razões sonoras, tão somente.

Critico assim migalhas
atiradas aos pombos,
fazendo referência
a algo mais definido
que se me escoa pela mão rugosa,
esburacada à seiva do Sonho.

Escorre-me alguém que me habitava
a aspiração.
Quem era?

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